Fernando Pessoa e o “Livro do Desassossego” na BNP

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No passado 29 de janeiro teve lugar na Biblioteca Nacional de Portugal a conferência “Fernando Pessoa e o Livro do Desassossego: uma escrita que não cessa de escrever-se” proferida por Diego Giménez. Tratou-se da quarta de uma série de conferências sobre Tópicos Pessoanos, organizadas no âmbito do projecto de investigação Estranhar Pessoa, que abrem um espaço de divulgação e debate de novas ideias em torno da obra do Poeta. A conferência foi apresentada e comentada por Gustavo Rubim. Segue-se um excerto com os pontos destacados da comunicação:

“Apresentação

Falar sobre o Livro do Desassossego e a sua história é uma atividade condenada ao fracasso, ao anacronismo dada a fecundidade com a que a obra inacabada de Fernando Pessoa manifesta-se desde que visse a luz por primeira vez em 1982 da mão de Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha para a editorial Ática. Por esta prolificidade é possível que neste momento esteja a ser pensada e construída mais uma edição que somaria uma estrela à constelação editorial pessoana. Seguiu à primeira edição a de Teresa Sobral Cunha (1990-2012), depois a de Richard Zenith (1998-2014) e finalmente a de Jerónimo Pizarro (2010-2013). Cada um destes três últimos especialistas lançou novas edições, chegando a somar umas vinte publicações que diferem entre elas. As perguntas que emergem quando nos acercamos ao espólio e edição do escritor são se realmente variam tanto entre elas, o que é o livro e quem é o seu autor.

A genesis

Para intentar responder temos que ir à mesma genesi da obra pessoana. Fernando Pessoa começou a escrever os primeiros fragmentos do Livro a princípios do século XX. A composição apresenta duas fases de escrita: a primeira vai desde o 1913 até o 1920 e a segunda de 1929 até 1934. Cada uma das fases de escrita foi atribuída pelo Pessoa a um autor diferente. Primeiro a Vicente Guedes e posteriormente ao Bernardo Soares. Entre ambas fases um intervalo que ainda hoje é um mistério para os investigadores.

O livro desde o início é concebido por Pessoa como uma obra cuja nota predominante é a inquietude e a incerteza e que termina transformando-se num laboratório de escrita. Reflexões sobre o processo de composição dos textos, sobre o processo d leitura, de revisão e sobre a construção da obra são uma constante que o escritor vive com angústia. Lemos:

Fazer uma obra e reconhece-la má é uma das tragedias da alma.

Decidir-me, finalizar qualquér cousa, sahir do duvidoso e do obscuro, são cousas [que] se me figuram catastrophes, cataclysmos universaes.

O espólio e as ediçoes

Pessoa planificou diversos índices e escreveu prefácios que testemunham a vontade de reunir os textos num livro. Mas o livro nunca se consumou. O escritor só publicou em vida 12 artigos como parte do LdoD. A BNP seleciona, aproximadamente, uns 772 documentos relativos ao espólio desta obra em concreto. Sobre esta base as edições variam entre os 400 e os 700 fragmentos. Depois da sua morte, em 1935, tiveram de passar 47 anos, os mesmos anos que tenha quando morreu, para que a primeira edição visse a luz. A historia da primeira publicação está associada ao inventário e catálogo do espólio. Esta atividade realizou-se de forma um pouco acelerada, motivo pelo qual Jorge de Sena, que tenha de ser o responsável da mesma, terminou por desistir. Todas as edições entendem-se, a partir de 1982, em função das outras e da melhora na leitura e transcrição do espólio, sendo a edição crítica de 2010 o máximo exponente neste sentido. O professor da Universidade de Coimbra, Osvaldo Manuel Silvestre, resume o períplo editorial pessoano com a fórmula: “Pessoa=arca=arquivo=digital”.

“O que a fórmula pretende narrar é, basicamente, o devir-arquivo de Pessoa nas suas fases históricas decisivas: na fase inicial, a da edição da obra de Pessoa na Ática, e sendo o editor principal quem era (João Gaspar Simões, isto é, alguém muito céptico em relação ao alcance da heteronímia), Pessoa era o nome ou metanome de Autor que, das capas dos livros ao critério filológico e editorial, regulava toda a edição. A partir de certa altura, que podemos situar na década de 80, Pessoa começa a ser não o metanome mas cada vez mais um deíctico para um espólio metonimicamente indexado a uma arca. A transformação do espólio em arquivo, por meio dos trabalhos de instituições competentes para o efeito, ocupa as décadas posteriores, até à digitalização actual, que encerra um processo historicamente necessário, a partir do momento em que se lançam os trabalhos da edição crítica, mas não sem efeitos sobre a própria constituição daquilo que é hoje um Pessoa-Arquivo. (Silvestre, 2014: 87).

Trata-se de um grande resumo do recorrido editorial de Fernando Pessoa em que vemos a relação que há entre construção, ideologia e representação.

Uma escrita que não cessa de escrever-se

Como podemos ver, o livro que chega ao leitor presenta uma dimensão de construção póstuma considerável. A escrita de Fernando Pessoa caracteriza-se por essa abertura ou falta de fechamento que leva aos especialistas a tomar uma parte ativa na interpretação e na formalização como livro. Trata-se de uma escrita que expande-se pelas muitas correcções e fases de revisão que ficaram sem resolver e que sustem a tese de que é uma escrita que não cessa de escrever-se, motivo pelo qual não cessa d editar-se, não cessa de realizar-se e não cessa de nominar-se. Este é o motivo pelo qual a obra é chamada de romance, de diário, d autobiografia, de ensaio, de texto suicida… Porque é o livro e todas as suas potencialidades.

O Livro do Desassossego nunca viu a luz de mão de Fernando Pessoa. A morte segou implacável toda possibilidade de reescrita, ordenação ou expansão e terminou por converter em compositores a especialistas, editores, leitores e utilizadores. Todas as edições terminam por formalizar a escrita que não cessa de escrever-se. Derrida chama interrupções ao corte que se faz sobre uma escrita infinita. As edições são interrupções que desejam parecer-se a um original que não existiu, que não existe e que não existirá, mediadas no desassossego de Coelho, o desassossego de Cunha, o desassossego de Zenith e o desassossego de Pizarro.”

Diego Giménez é licenciado em Filosofia na Universidade de Barcelona (UB) e mestrado em Estudos Literários na mesma universidade, tem realizado diferentes actividades relacionadas com a literatura e o jornalismo. Trabalhou na redacção de LaVanguardia.com e co-fundou em 2008 Revista de Letras. É doutor em literatura e pensamento na UB, com uma tese sobre o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, sob a tutela da Dra. Elena Losada e da Dra. Isabel Soler. É também bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e investigador na Universidade de Coimbra, onde trabalha no projeto financiado pela FCT «Nenhum Problema tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego» PTDC/CLE-LLI/118713/2010.

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